Sobre o caráter das manifestações na cidade de São Paulo 4


Contribuição do militante Felipe “Bahia” Corneau

Há mais de dez anos no governo federal, o Partido dos Trabalhadores há muito tempo abandonou as ruas. O partido que mais esperanças deu aos brasileiros, que a mais pessoas falou sobre a mudança, foi justamente aquele que, no último período, cumpriu o mais importante papel na estabilização desse sistema excludente. Apesar do aumento do poder de consumo de importante parte da população brasileira, quem mais ganhou durante os governos do PT são aqueles que vivem da exploração do trabalho. Apesar de ter sido forjado na luta dos trabalhadores e de ter chegado ao comando do Estado por meio da promessa de mudanças estruturais, a política de seus governos serviu para que as mesmas elites continuassem no poder, para que as relações de exploração no Brasil permanecessem quase inalteradas.

Mesmo com a política de conciliação de classes lulista e com a agressiva cooptação dos instrumentos históricos da classe trabalhadora, temos experimentado nos últimos anos uma importante rearticulação dos movimentos populares no país. Temos nos empenhado dedicadamente à construção de um novo caminho para a emancipação da classe trabalhadora e importantes avanços tem sido conquistados.

Uma importante prova dessa rearticulação é a recente vitória que os movimentos conquistaram sobre os governos em todo país, obrigando-os a recuar no aumento da passagem dos transportes públicos. Enquanto o povo lutava unido na rua, PT e PSDB articulavam juntos os discursos e a repressão. Poucos momentos na história recente do Brasil são tão simbólicos como aquele em que, envergonhados, Alckmin e Haddad – PSDB e PT- anunciavam juntos o seu recuo. No momento em que a classe trabalhadora avança, as frações concorrentes da burguesia não hesitam em se unir na repressão.

Apesar da grande vitória sobre os governos da burguesia, a esquerda organizada agora parece sofrer um grave revés. Após ter iniciado um movimento que colocou centenas de milhares nas ruas, os partidos e organizações de esquerda foram expulsos violentamente dos protestos em São Paulo e outras importantes cidades do país. Embora nossas bandeiras já estivessem sendo hostilizadas desde o grande ato de segunda-feira (17/06), e muitos já aparecessem com a bandeira do Brasil, cantando o hino nacional, foi somente na quinta-feira (20/06) que a situação se desenrolou por completo. No Rio de Janeiro militantes do PSTU foram gravemente feridos somente por portar suas bandeiras, em São Paulo mesmo a bandeira do movimento negro foi queimada, mesmo militantes da Marcha das Mulheres foram agredidas.

Aqueles que foram às ruas nas manifestações recentes e observaram também as discussões na redes sociais não puderam deixar de ficar, já há alguns dias, apreensivos com a aparência conservadora que iam tomando as manifestações e as discussões em seu entorno. Se no início havia somente o anti-partidarismo e o nacionalismo, os saques de terça-feira (18/06) nos trouxeram a galope, mesmo entre os manifestantes, os pedidos por maior presença da polícia e por uma “liderança firme e bem intencionada”, para evitar os excessos. Após as agressões e a sistemática erradicação das organizações de esquerda das manifestações na quinta-feira (20/06), não podíamos deixar de gritar o que já comentávamos entre nós: FASCISMO!

Penso que nossa atuação nas manifestações foi um pouco desastrada, temos de assumir uma parte da responsabilidade pela proporção que essas hostilidades tomaram. Digo isso com completa noção do quanto teria sido difícil agir diferente. Depois de atravessar a árida conjuntura da última década, com a traição do PT, a capitulação de movimentos sociais, finalmente conseguimos construir um movimento massivo, estávamos na iminência de uma vitória! Como não marcar nossa presença no maior ato em vinte anos? Como não levar nossas bandeiras? Mas verdade é que, em vez de buscar o diálogo com os manifestantes que repudiaram a presença de partidos, demarcamos nossa posição e fomos para o embate, os tratamos como inimigos.

Há os fascistas, as direitas, claro. Mas acredito que a maioria é daqueles que estão fartos dessa democracia incompleta, desse Estado que não nos representa. O repúdio aos partidos pode estar sendo instigado pelos fascistas, mas a maioria não enxerga nessas bandeiras aquilo que nós militantes enxergamos. Muitos atacam as bandeiras dos nossos partidos porque as interpretam como a intrusão de justamente aquilo que mais abominam, aquilo que mais as impulsiona às ruas, o Estado e a “política” realizada em seu interior. A busca pela bandeira brasileira é para muitos um modo de pautar o interesse de todos, contra aquilo que eles enxergam como a personificação dos interesses particulares, excusos: os partidos. Articulam sua indignação com signos fascistas, são e serão facilmente usados pelos fascistas, mas não são em sua maioria fascistas.

Se assumirmos essa falsa polarização, já perdemos antes de começar.

Eles chamam os partidos de de oportunistas, tem medo de serem usados – Quem pode culpá-los? Eles não querem que os representemos no parlamento, não admitem repetir o erro da geração anterior, que construiu o PT. Acertam aqueles que apontam o quão desorganizados são os seus sentimentos de revolta – não sabem bem o que propor, só não querem mais saber do que está aí. Não querem mais votar, querem participar, decidir.

Não acreditam mais nesse nosso simulacro de democracia.

É somente ao entender o que significa de fato a rejeição dessas pessoas à “política” e aos partidos que conseguiremos criar canais de comunicação com aqueles que ontem nos hostilizaram apaixonadamente. Não devemos adotar o argumento da traição do PT (tentar convencê-los de que somos partidos diferentes, que não trairemos nossas bandeiras ao chegar ao poder desse Estado), mas sim mostrar a eles o quanto nós também rejeitamos esse Estado, o quanto também estamos empenhados na construção de algo totalmente novo. Apenas reafirmando nosso caráter radical, explicando pedagogicamente o que significa o nosso comunismo, é que conseguiremos ter capacidade de intervir nesse processo. Nosso objetivo não é mudar radicalmente essa sociedade? Não é acabar completamente com esse Estado? Que deixemos isso bastante claro. Nossa tarefa é mostrar a eles a que realmente viemos, o porquê de estarmos nas ruas

Não é de se impressionar, portanto, que o petismo esteja apavorado. Aqueles que buscam na disputa dos aparelhos do Estado seu principal modo de fazer política só podem sentir-se completamente desnorteados ao defrontar-se com um movimento como esse, estejam eles ainda no PT, fora dele, ou mesmo em nossos partidos. Não devemos nos surpreender, dessa forma, se nos depararmos muito em breve com a análise de que devemos rebaixar nossas bandeiras e ampliar nosso arco de alianças para integrar uma ampla frente de resistência ao fascismo, em defesa da institucionalidade burguesa. Não seria nada inesperado, afinal, como poderiam eles agir fora de seu circo parlamentar?

Não quero dizer com isso que não há riscos. Como escrevi anteriormente, a grande maioria dos que estão nas ruas tem uma formação política conservadora, articulam sua indignação com palavras, idéias e signos conservadores – até mesmo fascistas. Essa situação é extremamente favorável aos verdadeiros fascistas que agora disputam o movimento. Apesar dos riscos, não há iminência de golpe. Deixar nesse momento a crítica do Estado para a extrema direita e alinharmo-nos em defesa da institucionalidade burguesa, mais uma vez reféns do Lulo-petismo numa suposta “luta contra a direita”, é garantir que, se a mudança vier, ela será contra nós. Seria perder completamente de vista a nossa tarefa histórica, simplesmente abdicar da construção de outra sociedade e embarcar de vez na manutenção dessa.

Os petistas não são os únicos. Aquela esquerda que se acostumou com o gueto faz o mesmo alarde – mas aí somente coloca em prática a dificuldade de análise e de diálogo que a colocou no isolamento. Reafirmar a sua radicalidade sem buscar traduzi-la, comunicá-la realmente àqueles que estão na rua, somente pode levá-las para um buraco ainda mais obscuro.

Enfim, a maneira como vamos interpretar tudo isso será determinante para que tenhamos a possibilidade de nos posicionarmos em condições de fazer a disputa de hegemonia no próximo período. Tanto a esquerda que se acostumou com o gueto quanto o petismo estão pautando a reação contra o fascismo. Devemos nos diferenciar, decodificar nossas posições, as deles… mas devemos traduzir principalmente as posições da maioria dos manifestantes.


4 thoughts on “Sobre o caráter das manifestações na cidade de São Paulo

  • Reply
    Jose Romildo Nachbar

    Ele fez uma analisa muito bem pautada em relação ao PT, mas quem conheceu Lula desde o sindicalismo garante que Lula ja era um corrupto nato, e o seu maior sonho era chegar onde chegou, não importa como foi isso, a globo sabe o que Lula fez para chegar lá, e o povo que tanto acreditava no sonho de dias melhores sofreu essa enorme decepção, por isso hoje como diz o ditado, gato escaldado, tem medo de agua fria, agora é preciso trabalhar muito para montar um partido forte, os dissidentes do PT se espalharam formando vários pequenos partidos, isso não deveria ter acontecido, no meu ponto de vista deviam sim sair, mas todos unidos e formar um único partido de esquerda, forte e em condições de peitar o PT de igual pra igual e se isso não acontecer bay-bay ideologia de esquerda.

  • Reply
    Gilmar Caetano

    Parabéns! , é desta análise que toda esquerda brasileira está , …. os candidatos a vanguardistas dos trabalhadores tem o histórico sofisma de culpar a “massa trabalhadora ” pelos erros nas suas táticas e estratégias de luta , muita coisa coisa nova surgiu no materialismo do processo produtivo que fundamentalmente determina a consciência coletiva , não podemos esperar que uma massa alijada de qualquer participação política verdadeira ,(quem foi militante do PT sabe como funcionou a exclusão completa de militantes que eram comprometidos em politizar de verdade os trabalhadores), saiam as ruas com “consciência de classe” , elas estão ainda no estágio da rebeldia, mas podemos avançar se soubermos entender este período histórico dos trabalhadores brasileiros. Gilmar Caetano.

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