Sobre as manifestações contra a copa e a reação governista


por Felipe Corneau

Onde realmente mora o risco de “golpe da direita”, nas ruas ou nos palácios?

A burguesia conservava a França resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; (…) A burguesia fez a apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a imprensa revolucionária; sua própria imprensa foi destruída. Colocou as reuniões populares sob a vigilância da polícia; seus salões estão sob a Guarda Nacional democrática; sua própria Guarda Nacional foi dissolvida. Impôs o estado de sítio; o estado de sítio foi-lhe imposto. Substituiu os júris por comissões militares; seus júris são substituídos por comissões militares. (…) Reprimiu todos os movimentos da sociedade através do poder do Estado; todos os movimentos de sua sociedade são reprimidos pelo poder do Estado. (…) A burguesia não se cansava de gritar à revolução o que Santo Arsênio gritou aos cristãos: Fuge, tace, quíesce! (Foge, cala, sossega!) Agora é Bonaparte que grita à burguesia: Fuge, tace, quiesce!

(O 18 de Brumário de Luís Bonaparte – K. Marx)

Desde as Jornadas de Junho temos lutado em dois frontes. O primeiro é nas ruas, ocupando as cidades por mais direitos, enfrentando a polícia – colocando nossos corpos em risco na luta para mudar esse país. O segundo é sobre o caráter e o próprio significado dos acontecimentos. Afinal, quem está indo às ruas? O que eles querem? Isso tudo por 20 centavos? Não seria somente a direita indo às ruas para desestabilizar o governo do PT?

Apesar das agressões que sofremos e dos companheiros que levarão as marcas da violência da Polícia Militar por toda a vida, vencemos em ambos os frontes. Antes questionadas sobre a real importância dos “20 centavos”, as manifestações angariaram o apoio de parte expressiva da população e levaram milhões às ruas. Conseguimos o recuo no aumento das passagens, e mesmo o inoperante e retrógrado Congresso Nacional viveu dias presteza e progressismo. O governo Dilma, claramente amedrontado, chegou a propor um plebiscito e uma reforma política, ainda que tenha reafirmado o seu compromisso com a atual política econômica.

Muitos se assustaram com a rejeição dos jovens de junho aos partidos políticos, mas a maioria logo entendeu que o que realmente havia era uma profunda (e já esperada) rejeição à politica institucional como a conhecemos. O que tinha saído às ruas era uma aguda crítica à imperviedade e à inoperância da nossa “democracia liberal”. A maioria de nós logo entendeu que as lutas de junho eram por mais direitos, por mais participação, e contra as elites que sempre utilizaram o Estado brasileiro como seu próprio instrumento particular.

Os governistas, no entanto, continuaram a investir numa versão diferente. Ainda durante as mobilizações de 2013, já era possível ver divulgadas as interpretações de “intelectuais” como Emir Sader e Marilena Chauí, (aqui em palestra à PM do Rio de Janeiro !), classificando as ações da juventude organizada nos Black Blocs como “fascistas”, pois elas se oporiam, “de forma violenta”, às nossas “instituições democráticas”, “sem propor alternativas”.

Sem direito, sem copa

Agora, enquanto vamos às ruas para denunciar a realização da Copa da Mundo no Brasil – mais um claro episódio em que, às custas dos nossos direitos, o Estado brasileiro é utilizado para o enriquecimento de grupos particulares (inclusive multinacionais, como a FIFA) – os desafios se repetem, e enfrentamos novamente, não somente a truculência da PM nas ruas, mas também as acusações dos apologetas de plantão. Assim como ouvíamos muitos dizendo que não valia a pena ir às ruas apenas por 20 centavos, agora ouvimos “por que manifestar-se agora, se o dinheiro já foi gasto?” ou “não foi tanto dinheiro assim, foram só (!) 8,9 bilhões em estádios”.

Assim como junho não era somente sobre os 20 centavos, as manifestações de hoje não são somente sobre se vai ou não ter copa. Afinal, que fim levaram as reivindicações de mudança polítca que marcaram as jornadas? Além do recuo nos aumentos, em que pé ficaram nossos direitos?

O que surpreende e assusta cada vez mais, no entanto, é o autoritarismo das medidas dos governos e do discurso de seus defensores. Enquanto o governo federal aciona o exercito e declara guerra aos movimentos sociais, seus defensores e porta vozes ilustres (como o próprio Emir Sader), agora repetem acriticamente: “Quem está contra a copa está contra o Brasil!”

Ainda no final de 2013, com o objetivo de garantir a realização da Copa da FIFA, o Ministério da defesa lançou um documento classificando organizações e movimentos reivindicatórios como “forças oponentes” e garantindo a atuação do exército no caso de “bloqueio de vias públicas” ou “paralisação de atividades produtivas”. Enquanto isso, no primeiro protesto contra a Copa em São Paulo, as agressões da PM (não, não era a SS) no Hotel Linson e a covarde tentativa de assassinar o manifestante Fabrício nos relembraram como a polícia de Alckmin trata os protestos populares.

Enquanto os governos criminalizam as manifestações e a população é trucidada nas ruas, os blogues governistas não deixam de apontar o “fascismo”… mas o localiza nos manifestantes! Enquanto um blogueiro ilustre (não, não foi o Goebbels) chegou a modificar fotos para introduzir uma suástica nazista numa bandeira negra anarquista, Paulo Henrique Amorim cobra, exaltado, uma ação enérgica do Ministro da Justiça, do exército e da Força Nacional! O mais irônico é que ele chega a comparar o “incêndio do fusca” ao “incêndio do Reichstag”!

Ora, agradeço ao “jornalista” pela melhor metáfora para apontar de onde vem a ameça fascista. Não foi justamente o incêndio no parlamento alemão em 1933 a desculpa perfeita para que os nazistas suspendessem as liberdade civis da população e iniciassem uma campanha implacável de mentiras e perseguições contra o militantes de esquerda e o Partido Comunista? Não é justamente o “incêndio do fusca” que é usado agora para perseguir e isolar os manifestantes?

Quem está contra o país?

Em um país que viveu 20 anos de uma ditadura militar que tinha como principal mote “Brasil, ame-o ou deixe-o”, não parece crível que queiram nos empurrar de novo a defesa da “pátria de chuteiras”.

É preciso dizer, no entanto, que assim como há 50 anos, realmente há uma fratura no Brasil, que nos amarra e sufoca. Mas novamente, ela não é entre aqueles que defendem ou não o governo (ou a Copa), mas sim entre estes que lutam e trabalham por uma país mais igualitário e democrático e aqueles que se valem da violência institucional para manter a desigualdade e os privilégios.

Pois bem, se o Brasil realmente enfrenta o ataque de forças autoritárias e se realmente há elementos fascistas, que nos colocam em risco de um “golpe da direita” eles vem diretamente dos governos. Tanto daqueles que já são mandatários do que há de mais retrógrado, como o PSDB de Alckmin e Aécio, como daqueles que se dizem progressistas. Os governistas, acometidos por seu próprio tipo de cretinismo e apavorados com a movimentação das ruas, destituem-se das próprias armas para manterem-se no poder. Se conseguirem reprimir os protestos, já podem saber o que esperar se falharem em ser os mais fiéis servos do Capital no Brasil.

Da nossa parte não há motivos para recuar! Se realmente queremos mudar o país e mostrar a essas elites autoritárias que o seu tempo acabou, devemos continuar nas ruas a repetir em alto e bom som: “Se não tiver direitos, não vai ter copa!”

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