Nota política sobre a atual revolta popular no Brasil 6


Nota política do Coletivo Primeiro de Maio

O Brasil vive um momento de revoltas generalizadas contra o mal estar gerado pela ordem capitalista e pela democracia restrita brasileira. A força, a difusão das demandas e a desorganização das massas são o retrato de um momento de pouca maturidade política de uma geração que viveu até poucos dias, com a capitulação do PT e a cooptação de importantes movimentos sociais, um enorme processo de desmobilização e deseducação política.

Este momento também atesta a fragilidade do lulismo enquanto projeto de hegemonia. Quando ruíram seus pilares – a saber, o crescimento econômico mediano e políticas de classificação social através da mercantilização de direitos, a expansão do consumo ancorada no endividamento familiar, veio à tona a insatisfação social com a falta de acesso e o sucateamento dos serviços públicos. No fundo, a tentativa de aliar crescimento econômico, justiça social e soberania nacional se mostrou falaciosa no capitalismo brasileiro.

É emblemático que a revolta popular tenha tido como estopim a questão do preço e da qualidade do transporte público. Marco histórico do capitalismo dependente, a prioridade à produção de veículos individuais em detrimento de políticas coletivas de mobilidade urbana foi maximizada pelos governos petistas, piorando ainda mais a qualidade de vida nas metrópoles brasileiras. O aumento do custo dos alimentos e dos imóveis pressionou ainda mais o orçamento dos setores populares. Além disso, a experiência da população com o modelo de privatização dos direitos sociais (como o Minha Casa Minha Vida, o Prouni e a ampliação dos planos de saúde) se mostrou a pior possível; o modelo lulista de “cidadania via mercado” frustrou as expectativas de inclusão social.

A despeito do caráter difuso e impreciso do “nacionalismo” visto nas manifestações, um dos seus aspectos mais salientes é a indignação com os desmandos de uma multinacional  estrangeira – a FIFA,  que sacrificou bilhões de reais do orçamento público para garantir as enormes margens de lucro exigidas por seus sócios. O caráter antiimperialista desta luta está afinado com as melhores tradições nacionalistas da América Latina, que desde a emancipação do século 19, as revoluções do século 20 (como em Cuba e na Nicarágua) e do século 21 (Venezuela) buscam sintonizar os anseios democráticos das massas populares com as necessidades de libertação do imperialismo.

Neste sentido, a revolta popular abre enormes perspectivas positivas para a emancipação do povo brasileiro. A novidade deste processo de educação política é que uma nova geração de lutadores aprendeu que não é só possível mas necessário protestar e lutar nas ruas por seus direitos. Começa a ficar claro que a busca pela participação popular passa agora por superar esta democracia representativa burguesa, mostrando que as conquistas devem ser arrancadas pela mobilização popular. Em suma, a tarefa é esgarçar os limites da democracia restrita brasileira, para romper o monolitismo político do atual bloco de poder.

A disputa empreendida pelos setores mais conservadores da classe dominante pela hegemonia do caráter da revolta popular não deve surpreender. O caráter truculento e antidemocrático de setores de extrema-direita nos protestos e da propaganda midiática é apenas uma expressão mais aberta do caráter autocrático da dominação de classes no Brasil, que não se tornou mais democrático com o fim da ditadura.

Devemos ser compreensivos e pacientes com a massa indignada que rejeita os partidos. Sua experiência política correlaciona todos os partidos ao regime político e à ordem. O combate à influência da direita e da extrema-direita deve se dar na disputa de referência através dos campos de movimento social e de juventude, bem como na disputa pela pauta política das revoltas populares. A necessidade de organização política deve ser o saldo posterior deste momento do aprendizado político das massas.

O PSOL deve portanto reafirmar a sua crítica radical a esse modelo de sociedade excludente e a essa forma política elitista e autoritária. Devemos resistir decididamente às tentações de engrossar as fileiras em defesa do projeto histórico do PT, pois sem que consigamos nos diferenciar definitivamente dos partidos fisiológicos, defensores da ordem, não teremos capacidade de disputar e somar forças a essa juventude indignada na construção de um novo Brasil.

A revolta popular tem sintomas difusos mas causas bem definidas. O mal estar social deve começar a ser resolvido com o passe livre para a juventude e desempregados, e a redução das tarifas de ônibus. Isto só será possível com a estatização do transporte coletivo em escala nacional, de forma a evitar desperdícios, eliminando o lucro extorsivo dos empresários de ônibus e permitindo inclusive aumentar os investimentos no setor.

Os ventos democráticos também escancaram o enorme déficit de moradia do povo brasileiro, sua má qualidade (metade da população não tem saneamento básico no Brasil) e colocam imediatamente a pauta de reforma urbana que seja capaz de conter a especulação imobiliária e garantir a cidade como espaço de todos e não da criação de negócios. Saúde e educação despontam ainda como temas fundamentais, demonstrando que estas políticas até hoje não se constituíram pilares do sistema de proteção social Brasileiro. Dotar de 10% do PIB cada um destes setores e ter um plano de estatização são os pressupostos para garantir acesso e qualidade na construção de um projeto emancipatório para o Brasil. Por fim, precisamos utilizar deste momento para recolocar a necessidade de superar o racismo, que massacra a juventude negra nas periferias, a homofobia, que assassina centenas de brasileir@s a cada ano, o machismo, que condena as mulheres a uma existência subordinada e violenta, à política anti-indígena, que dá continuidade ao genocídio de mais de 500 anos, e à predação do meio ambiente, que coloca a existência da vida humana no Brasil e no mundo em risco.


6 thoughts on “Nota política sobre a atual revolta popular no Brasil

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    Mirian Alves do nascimento

    Acho que o PT fez foi o que qualquer partido de esquerda poderia ter feito. Se fizesse mais de seu programa original, não tenho a menor dúvida que as elites já tinham feito isso que estão fazendo agora, manipulando a massa e planejando golpes. Não dá pra sermos ingênuos. As próximas eleições vão mostrar o que o povo está “pensando”. Duvido muito, espero estar enganada, que vão votar no PSOL ou no PSTU. Vão voltar a votar no PSDB e seus aliados.

    Outra coisa que sabemos é que o PT sozinho jamais ia ganhar eleição. Primeiro porque o povo ainda tem medo de “socialismo”, “comunismo”, “trabalhismo”. Nem sabem direito quais são essas linhas de política. Mas a campanha do século XX inteiro ainda faz sucesso. Aliar-se ao PMDB foi a tentativa de conseguir chegar ao poder. Fizeram o que foi possível, eu penso.

    A corrupção é reflexo do povo. O povo brasileiro de forma geral é corrupto. Alinhado às “aulinhas” dos meios de comunicação de massa, só quer saber de enriquecer, custe o que custar, sem pensar além do seu umbigo.

    Acho importante pensar agora no momento delicado em que nos encontramos. Pensar muito bem nas críticas que se faz do governo, que eu tenho consciência, não é o necessário pro país. Mas é o possível. E mais: as esquerdas sempre se dividiram nas horas mais críticas. Foi assim na Guerra civil Espanhola, foi assim na ditadura civil-militar no Brasil (com mais de 60 organizações) e espero que não seja agora. Depois que esse turbilhão passar deve-se voltar a exigir do governo os direitos pretendidos. Agora não é hora de críticas que ameassem ainda mais a democracia!! Voto PSOL!!

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      Fibonati

      Gostei do texto. Boa reflexao. Mas, sua colocacao Miriam, de tudo que eu já li por aqui na web, foi a mais coerente avaliacao da historia do PT. Concordo plenamente, com a questao de que se nada for mudado, o povo irá acabar votando no PSDB, ( tbem espero estar enganada). Todos os pontos colocados nesta ideia foram de uma precisao e coerencia excelente. Abs.

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    Daniel Buso

    Ótimo texto, hoje sou apartidário desiludido, não acho um partido que alie progresso com bom senso, parece que é por isso que os manifestantes não querem nenhuma bandeira andando ao seu lado, porque não há um partido que os represente. O que mais me desilude no PSOL é esse discurso de Direitos Humanos, poxa vida quando as pessoas tiverem consciência e respeito pelo próximo não precisaremos defender um ou outro, por isso que precisamos dedicar todas as forças à Educação, acho que é a única forma criarmos uma sociedade justa.

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    Geraldo César Martins de Oliveira

    Tudo indica que continuarão as parecerias público privado (PPP) nos serviços essenciais e nada que combata tais privatizações/terceirizações.
    Destinar 100% do royalts do petróleo e 50% do royalt do pré-sal para educação é muito menos que os 10% do PIB (o petróleo é parcela do PIB), bandeira histórica que inclusive já fora do próprio PT, queremos também 10% do PIB para a Saúde. Vale lembrar que os royalts só serão pago se o poço de petróleo produzir mais de 90 mil barris/dia, o que é um mega poço que jorra à flor da terra no oriente médio. Se a concessionária estrangeira (Shell, Exsonn,etc) fecharem só um pouquinho a torneira do poço e produzir 89,999 mil barris/dia, a Educação e a Saúde ficarão sem financiamento, portanto estaremos subordinado nossas políticas públicas desses setores às megacorporações internacionais.
    Portanto nada, absolutamente nada contrário a adoção do Estado Mínimo e neoliberal, privatista e supercapitalista está sendo ouvido pelos governantes.
    O povo deve continuar nas ruas.

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    Jose Romildo Nachbar

    A colocação feita por Miriam expressa exatamente minha opinião, se quiserem um partido de esquerda com chances tem que unir forças em torno de um só partido, com bons lideres, boas propostas que venham realmente convencer os eleitores, caso contrario bay-bay ideologia socialista.

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